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Quem é Nós no vosso reino

Invariavelmente
era eu as cinco variações do apocalipse.
Era cínico na primeira curva
e capotava no velho assoalho da insipiência.
Era embriagado na segunda marcha
e tinha trancos de risos
 - ou soluços de dor? -
(arroto)
Era solícito no terceiro Reich,
e comia com farinha e angústia
menininhas e acepipes.
Era desvairadamente comedido
na quarta trave do jogador,
e deixava restos na área que triangulei.
Era a perfeita quinta
sinfonia e boa vista,
e me variava de palavras pra justificar
humores abstratos, ocultos.
Todos inumeráveis.

SEMENTE

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me bati com ele
vestes e anormalidades tomadas
de vistas, cheiros e cascas
de gente podre
visto que
toda gente é podre
e toda gente é pobre
e todo pobre é podre
e todo podre é pobre
 e toda riqueza do mundo
é pobre, podre e rica
tal qual a árvore cheia de podres
frutos folhas cascas
cascas folhas frutos
pobres podres ricos
ricos podres pobres

(foto: André Jerico)

POEMA ESTACIONÁRIO

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A loucura deste quintal que me hospedo
(temporariamente)
me normaliza e convenciona
faz de mim caramujo de jardim
- sombra bem carmim -
nada parecida com as volubilidades
de minha essência de migalha sobre toalha de mesa da casa de vó
com Mirinda, cuscuz, manteiga e sono
e a vista apontada pra morena avistada,
pronta pra ser fodida quando eu fechar os olhos,
largar o garfo e pegar a estrada.

VERSOS AO ANALISTA

acorda a poesia
madrugada bocejo
medo urina desejo
pinga um grosso amarelado
indefinidamente sem cor
em largos sacos
cheios de vácuo da memória
do sono, (ou veja lá, por favor,
como posso chamar isso)
uns carregam minhas dores
uns, alguns amores
outros, frases prontas
porém, a maioria,
não sabe por que acorda
(veja lá, por favor,
como posso chamar isso)

IMALE SE REVOLTA

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Malê Debalê
vê na malemolência
malvada do baiano,
curtido na amálgama
do pouco ganho,
a sabedoria suada de outras horas,
enquanto mares de fora
soletram suas ondas
em insalubres sílabas,
e rebentam,
preferencialmente,
beira-mares e engodos.

Malê vê balé
na poesia do canto
- essa maravilhosa forma
de entoar apetites,
provocar estômagos
a primeiras, segundas e negras vozes -
ecos de quilombos
e tantos outros tombos,
no escravizar de apegos
e pararatuntuns libertos
por batuques e suas crenças,
por mortos e suas danças.

(foto: Patrícia Carmo)

A BAIANA E SEUS ANTIGOS

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Tertú disse Ao Homem que sempre
duvidaria de Sua existência
e teria todas as conveniências
que Ele nunca conseguirá ter

Ele iria zombar de Sua essência
faria todos os filhos e filiais
penetraria em ambos os mundos
em sacos sem fundos
que Ele nunca poderá penetrar

E foderia todas
santas penhoras
boduns e calçolas
senhoras sem horas
fingindo desprazeres
me-ti-da-men-te
descomprometedores

Amaria nem Deus nem Diabo
e zombaria da lorota de suas experiências
mas cultuaria a xoxota
- cartilaginosas moquecas -
de arraia com camarão e dendê
e a pilsen gelada com pimenta fadada
a ardê à dorê e escorrê se mordê.

André Jerico

REINCIDÊNCIA

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Surgiu embalada de um sono etílico.
Não compreendeu o sussurro
de um certo hálito capenga 
trazendo à baila babas de noite,
em versos fronhas manhas amanhãs.
Bateu com a cabeça em sua arrogância
antes de tropeçar em incuráveis certezas.
Machucou-se!
de PutasQuePariram e equívocos.
Doeu-se de menina distraída
pra manusear-se e umedecer-se
em vagas lembranças.
Visco lamentação lambança.

Antes de culpa, pecaria, pecaria:
sorriu, conferiu-se e lavou-se.

Jerico

DESENCONTRO

gal.jpgte tenho
em meu corpo
e descubro
teus seios
toco
teus seios
e te entrego
ao meu corpo